terça-feira, 7 de dezembro de 2010

José Saramago

Morre escritor português; relembre sua trajetória e confira as principais obras
 
por Mirella Fonzar e Solange Fonzar, redação ONNE

(Foto: Reprodução)

São Paulo, junho de 2010 – Nesta sexta-feira, 18 de junho, o mundo se despede de um dos maiores gênios da literatura. Aos 87 anos, o escritor português José Saramago - primeiro Prêmio Nobel português, em 1998 - faleceu em sua casa nas Ilhas Canárias, na Espanha.
Nascido em 1922, Saramago foi responsável por tornar a prosa portuguesa reconhecida internacionalmente. Ao todo, ele tem 36 livros publicados desde 1947. Em mais de 60 anos de carreira, foram 20 romances, três poemas, quatro crônicas, três contos, um relato de viagem e cinco peças de teatro; incluindo vários best-sellers.
Entre os romances, um dos mais populares é Ensaio Sobre a Cegueira, de 1995. Traduzido para diversas línguas, foi adaptado para o cinema, em 2008, por Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel. A obra traz uma intensa crítica aos valores da sociedade.
Caim (2009), sua última obra, vendeu aproximadamente 80 mil exemplares em Portugal, só nos primeiros 10 dias. O irônico é que a interpretação bíblica mordaz é um best-seller, num país com cerca de 85% da população católica. A própria Igreja aderiu a uma campanha contrária ao livro, mas não conseguiu afastar os leitores fiéis de Saramago.
A oposição ao catolicismo não é de hoje. A relação de tensão entre Saramago e a Igreja Católica começou após a publicação do livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, em 1991. A adaptação da obra para o teatro, em 2001, foi alvo de muitas críticas por parte de grupos religiosos contrários à visão do intelectual.
Em contrapartida, Saramago nunca temeu em expressar livremente seu pensamento. Em passagem por Roma, Itália, em outubro de 2009, o escritor chamou o atual Papa, Bento XVI, de "cínico", afirmando que o único modo de combater a "insolência reacionária" da Igreja Católica é utilizando a "insolência da inteligência viva", dos intelectuais.
Saramago acreditava que, como o Fascismo, a Igreja não se importa com o destino das almas, mas sim com o controle de seus corpos. “Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias por supostos representantes de Deus na Terra, os quais, na verdade, só têm interesse no poder”, disse em uma de suas declarações.
Além das polêmicas e constantes oposições religiosas, o escritor manteve, durante toda sua carreira, um forte envolvimento com a política internacional e os direitos humanos. Em janeiro deste ano, por exemplo, relançou o livro A Jangada de Pedra, revertendo toda a sua renda para as vítimas do terremoto no Haiti.
Apesar de ser constantemente criticado por sua visão religiosa e política, José Saramago deixou um legado indiscutível. E essa trajetória, definitivamente, não se resume aos prêmios ou denominações que ganhou durante a carreira. Escritor, jornalista, dramaturgo, contista, romancista, argumentista, poeta, não importa. Saramago já se fez eterno através de sua obra.

Confira alguns livros do autor que você não pode deixar de ler: 
     
(Capa: Divulgação)

Caim (2009)
Saramago reconta episódios bíblicos do Velho Testamento sob o ponto de vista de Caim, que, depois de assassinar seu irmão Abel, trava um incomum acordo com Deus e parte numa jornada que o levará do jardim do Éden aos mais recônditos confins da criação. Conforme o leitor acompanha uma guerra secular, e involuntária, entre criador e criatura, Saramago percorre cidades decadentes, estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha. No trajeto, a narrativa passa por episódios bíblicos conhecidos, mas sob uma perspectiva inteiramente diferente. Saramago recria também seus principais protagonistas, dando a eles uma roupagem complexa e irônica. A volta aos temas religiosos serve, também, para destacar o que há de moderno e surpreendente na prosa do autor. Aqui, a capacidade de tornar nova uma história que conhecemos de cabo a rabo, revelando com mordacidade o que se esconde nas frestas das antigas lendas.
      
(Capa: Divulgação)

Ensaio Sobre a Cegueira (1995)
O livro é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti. Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: "uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos".
     
(Capa: Divulgação)

O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991)
"O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo de sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo." Todos conhecem a história do filho de José e Maria, mas nesta narrativa ela ganha tanta beleza e tanta pungência que é como se estivesse sendo contada pela primeira vez. Nas palavras de José Paulo Paes: "Interessado menos na onipotência do divino que na frágil mas tenaz resistência do humano, a arte magistral de Saramago excele no dar corpo às preliminares e à culminância do drama da Paixão".
      
(Capa: Divulgação)

Memorial do Convento (1982)

"(...) A pretexto de escrever um livro sobre a história da construção de um convento em Mafra no século XVIII, Saramago inventou uma história outra, na qual entram outras famílias inesquecíveis a dos Sete-Sóis e a da Sete-Luas, e mais padre Bartolomeu de Gusmão com sua passarola, e o compositor Scarlatti com seu órgão e sua música, e mais reis e rainhas e princesas, e mais uma pedra descomunal que precisa ser transportada a longa distância, e o que acontece durante o transporte. Que pretende - e que consegue - José Saramago com seus livros poderosos? Para mim, isto: fazer o que fez Homero antes dele, isto é, escrever histórias aparentemente reais mas inventadas com tanta competência que depois de lidas passam a ser reais e a fazer parte da longa e sofrida experiência humana. Minha sugestão é: descubram José Saramago e façam dele uma possessão ultramarina particular de cada um e aproveitem." - José J. Veiga
     
(Capa: Divulgação)

Levantando do Chão (1980)

O livro é a narrativa da vida de uma família de trabalhadores rurais (os Mau-Tempo) da região do Alentejo, no sul de Portugal, em cujos limites se passa o romance, desde o começo do século até logo após o 25 de Abril. Trata-se de uma denúncia vigorosa da exploração, do desemprego e da miséria e, ao mesmo tempo, da tomada de consciência política por parte do trabalhador rural: o aprendizado da luta pelo direito ao trabalho, pelas oito horas de jornada e pela posse útil da terra. Pontuado por acontecimentos históricos de três quartos de século, este romance consegue tecer um painel da burguesia fundiária, à medida que vai compondo a "biografia" dos Mau-Tempo, e da própria história de Portugal no século XX. Vale dizer que o título do romance se relaciona com a última página do texto, com o "dia levantado e principal", ocorrido após um percurso de quase três quartos de século.

SERVIÇO

  • Abaixo, livros disponíveis na LivrariaElefante.com.br
    Caim
    Editora: Companhia das Letras
    Preço: R$ 38

    Ensaio Sobre a Cegueira
    Editora: Companhia das Letras
    Preço: R$ 46

    O Evangelho Segundo Jesus Cristo – Livro de Bolso
    Editora: Companhia das Letras
    Preço: R$ 26,50

    Memorial do Convento
    Editora: Bertrand
    Preço: R$ 53

    Levantando do Chão
    Editora: Bertrand
    Preço: R$ 53

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